A caverna e espaçonave ou a cabeça e os pés
Angelo Bucci


Toda coisa no céu inteligível também é céu, e ali a terra é céu, como também os animais, as plantas, os varões e o mar. Têm por espetáculo um mundo que não foi gerado. Cada um se vê nos outros. Não há nesse reino coisa que não seja diáfana. Nada é impenetrável, nada é opaco e a luz encontra a luz. Todos estão em toda parte, e tudo é tudo. Cada coisa é todas as coisas. O sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o sol. Ninguém caminha ali como sobre uma terra estranha.

(Plotino, extraído da "História da Eternidade" de Jorge Luis Borges)





No centro da cidade de São Paulo, em 29 de setembro de 2003, Marcelo Vila mostrava aos estudantes e arquitetos brasileiros a obra do seu escritório, o Estúdio VSV, num evento promovido pela Escola da Cidade (1).
Começo, aqui, pela última imagem que ele nos mostrou naquela noite: uma montagem fotográfica feita de vistas noturnas da terra a partir de tomadas de satélites.
Começo por querer saber por que é que ele nos mostrou aquela fotografia.
A imagem nos mostra o planeta inteiro à noite. Como se isso fosse possível! Aqui, a montagem fotográfica — que pode construir o movimento a partir de imagens estáticas, como no cinema — constrói um instante impossível a partir de tomadas de um planeta em movimento.

A sala onde, durante aquela conferência, se projetava esta imagem era escura e não contribuía para construir um dos pontos de possível identificação na própria imagem: uma grande concentração luminosa, relativamente isolada, que faz de São Paulo como que uma constelação, cuja magnitude é mantida pela coexistência de cerca de 20 milhões de pessoas que acendem as luzes de noite. Poucas cidades no Brasil têm mais de 100 mil habitantes, todas elas aparecem na fotografia. 100 mil pessoas também estão, a qualquer hora do dia ou da noite sobrevoando o Oceano Atlântico, mas nela não aparecem as luzes das rotas aéreas, das rotas marítimas ou terrestres. Esta fotografia não mostra as luzes que se movimentam como se fossem cidades andando.

É uma imagem absurda e linda. Talvez também seja reveladora.

Nela, o limite entre continentes e oceanos desaparece, cede lugar a outra geografia. No lugar de terra e água, escuro e luz. Bilhões de pontos de luz. É o planeta inteiro aceso, com lâmpadazinhas rosqueadas nos seus soquetes com a palma de uma mão!

Alguém poderia considerar que é como se a luz — a universalidade da técnica — apagasse as diferenças culturais existentes no mundo. Mas vale notar que foi o próprio Galileu quem nos alertou para o fato de que ao telescópio o fenômeno essencial é aquele do movimento (2), ou seja, o fundamental é considerar (3) nas observações celestes a dimensão do tempo. Aqui, nesse nosso telescópio invertido — que mostra a terra vista do céu —, também vale o seu alerta sobre aquilo que é essencial, a dimensão do tempo: as luzes que se observam são apenas a superfície do planeta visto do céu à noite, é como se fossem a camada mais recente e superficial do nosso mundo ou a camada mais rasa de uma arqueologia do processo histórico de construção das cidades. Além dessa última camada, luminosa, há muito mais. Por maior que fosse a resolução de imagem daquele satélite, estaríamos sempre ofuscados, sem ver nada senão o brilho de bilhões de lâmpadas elétricas.

Se as luzes dão a aparência de homogeneidade, por outro lado, elas são a medida precisa da desigualdade fundamental do nosso mundo. Porque estas luzes brilham com o consumo — de energia elétrica e de tudo — e assim às áreas de maior brilho correspondem as maiores riquezas. Nesta fotografia — que ilustraria bem a tese de Guy Debord: o espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem — é possível medir, com a mesma precisão com que medimos as estrelas no céu, a magnitude do capital concentrado em alguns pontos do planeta. Vale lembrar, outra vez, que além das luzes há muito mais. Há o que está onde não existe luz nenhuma e há também áreas completamente escuras no meio daquelas muito iluminadas.

Há um século nenhuma destas luzes existia.

Para perceber o que está abaixo desta camada arqueológica mais rasa, para conhecer o mundo da vida é preciso, como se diz, apagar as luzes, chegar mais perto e muito mais.

* * *

meu corpo de 1,70 m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê





Ferreira Gullar estava em Buenos Aires (4) quando, em 1975, escreveu esses versos. Eles são parte de um extenso poema, chamado Poema Sujo, que narra os anos em que ele viveu na cidade de São Luís do Maranhão. Interessante o fato de que aquilo que o poeta brasileiro escrevia em Buenos Aires, há quase trinta anos, faça-nos pensar, hoje, naquela imagem que nos mostrou o arquiteto argentino em São Paulo. Principalmente num trecho do poema no qual a descrição se faz a partir de dois planos paralelos: chão e céu.

... crianças que mal começam a andar
agarrando-se às pernas dos pais que nada podem,
debaixo daqueles telhados encardidos da nossa pequena cidade
a qual alguém que venha de avião dos EUA
poderá ver postada na desembocadura suja de dois rios
lá embaixo como se para sempre. Mas e o quintal da Rua das Cajazeiras? O tanque
do Caga-Osso? a Fonte do Bispo? A quitanda de Newton Ferreira?
Nada disso verá de tão alto aquele hipotético passageiro da Braniff.
... nada disso se percebe voando sobre a cidade a 900 quilômetros por hora.

Naquela fotografia, eu me identifico com os pontos escuros. Olho pra eles e vejo lugares cheio de gente que canta, conversa, escreve, desenha e não anda de avião.

É nesse corpo de altura e velocidade desprezíveis que caminho por uma rua mal iluminada, numa cidade precária do hemisfério sul do nosso planeta. Caminho com os pés pesando sobre o chão como se quisessem afundar na terra e com a cabeça boiando sobre o corpo como se quisesse decolar. Metade caverna e metade nave (5). Planos paralelos de Ferreira Gullar. Duas dimensões.

Por isso me parece razoável que alguém que se dedique a fazer projetos de arquitetura, hoje, seja impelido a considerar essas duas “dimensões”. Uma que organiza os muros de pedra sobre o chão e outra que quer deixar este planeta. Por isso talvez faça sentido a imagem que vimos naquela conferência. Mas vale notar que ela tem uma virtude e um risco.
Virtude porque mostra com clareza a insignificância das nossas ações individuais. Como alguém imaginar-se a desenhar cidades, diante da grandeza do desenho feito por aqueles bilhões de lampadazinhas.

Risco de fazer transparecer que o que está enterrado nela, por baixo daquela camada de luz, não tenha valor, como se a insignificância da vida não tivesse importância alguma. Afinal é ali, provavelmente num ponto escuro, andando nas ruas que a gente se encontra, conta história e se ampara como quem acredita que a vida será possível no futuro.

Bilhões de pés plantados no chão a apoiar bilhões de cabeças boiando a pensar. Em que? Talvez por isso é que vimos esta imagem naquela noite em São Paulo.

1
O evento reuniu arquitetos convidados para um workshop e um ciclo de conferências. Além de Marcelo Vila, estiveram presentes Rafael Iglesia, de Rosario; Solano Benitez, de Assunção e Luigi Snozzi, da Suiça; entre outros.

2
Mondolfo, Rodolfo. "Figuras e Imagens do Renascimento"
O que se segue é a carta de Galileu Galilei, preso e cego, ao discípulo e amigo Diodati.
"Galileu, seu amigo, tornou-se cego por completo, de maneira que aquele céu, aquele mundo, aquele universo que eu através de minhas observações maravilhosas e claras demonstrações havia ampliado por cem e mil vezes além do que comumente se cria reduziu-se agora e restringiu-se para mim até o ponto de não alcançar nada além do ponto de minha pessoa."

3
outra palavra ligada às observações celestes. Através da palavra sidera (astro), da qual decorrem duas palavras italianas considerare (levar em conta os que dizem os astros) e desiderare (desprezar o que dizem os astros e agir), conforme
Marilena Chauí, O Desejo, FUNARTE

4
Ele estava já havia anos no exílio. Moscou, Santiago do Chile e Lima. Em 1974, transferiu-se para Buenos Aires onde também a situação política logo se agravou. Foi ali que ele decidiu escrever um poema que falasse de sua cidade natal, assim surgiu o Poema Sujo. Vale notar que o homem chegara à lua enquanto na América Latina vigorava a ditatura, foi também numa cela de prisão que Caetano Veloso compôs Terra:
Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens
Terra,terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria

5
Fernando Diez, em Buenos Aires, esclareu-me muitas coisas ao descrever assim algumas casas.